TAL PAI... TAL FILHO? A COMPARAÇÃO POSSÍVEL ENTRE MIA COUTO E GUIMARÃES ROSA

 

Ana Claudia da Silva - USP

 

 

Esta comunicação pretende discutir qual a aproximação possível entre as obras do escritor brasileiro Guimarães Rosa e do moçambicano Mia Couto. Uma abordagem inicial dos universos ficcionais desses autores faz-nos reconhecer os fios aproximativos entre eles, sugerindo que a comparação entre seus textos possa se dar a partir de uma relação de influência.

Com efeito, Mia Couto, em diversas ocasiões, tem se referido à importância da leitura de Guimarães Rosa no seu processo formativo, como neste fragmento de entrevista.

 

Foi (...) o Luandino[1] o primeiro escritor que me mostrou que, desarrumando a língua, estaremos fazendo uma coisa que é nossa, e é natural que Angola tivesse um processo muito parecido com o nosso. Eu fiquei logo cheio de inveja do Luandino. Depois li uma entrevista na qual ele citava Guimarães Rosa como alguém que tinha operado nele aquilo que ele tinha operado em mim.

 

Eu já havia publicado o Vozes anoitecidase consegui, por intermédio de um amigo, o Primeiras Histórias (sic. ). Aquilo foi muito importante: completava um processo que havia começado com o Luandino, agora autorizado por alguém que fazia isso num sentido mais político. (Couto, l998, p. 10).

 

Essas declarações explicitam a influência exercida na escrita de Couto pelo contato com a obra rosiana, servindo de fundamento a uma possível investigação dessa natureza. Gostaríamos, entretanto, de discutir alguns aspectos com relação à influência de Rosa na escrita de Mia Couto.

O estudo de fontes e influências nasceu praticamente junto com a literatura comparada, sendo desenvolvido pelos comparatistas de orientação francesa, para quem a comparação deveria ser feita necessariamente entre textos de línguas diferentes. Esse arcabouço teórico, portanto, não é adequado ao caso de Couto e Rosa, ambos escritores de língua portuguesa. Assim, para abordar a questão da influência, recorremos a Cionarescu, um dos teóricos da literatura comparada tradicional que se sobressai pela clareza com que define algumas noções intrincadas como as de "influência" e "imitação”.

Para Cionarescu, o conceito de influência pode ser tomado em duas acepções. A primeira refere-se à soma das relações de contato entre um emissor e um receptor. A segunda, de ordem qualitativa, define a influência como o “resultado artístico autônomo de uma relação de contato, entendendo-se por contato o conhecimento direto ou indireto de uma fonte por um autor” (Nitrini, 1997, p.127). Esta segunda acepção aproxima-se do tipo de relação existente entre Rosa e Couto, embora sintamos dificuldade em considerar a obra coutiana como resultado dessa relação de contato, pelo fato de que o produto final oferecido aos leitores de Mia Couto é a soma de inúmeros fatores, sendo a leitura de Rosa apenas mais um entre deles.

Cionarescu observa que a influência tem como resultado "uma modificação da forma mentis e da visão artística e ideológica do receptor" (Cionarescu apud Nitrini, 1997, p. 127). Ora, não é propriamente o que observamos no caso de Mia Couto. A recriação da linguagem, geralmente apontada como o traço essencial que aproxima as escritas de Couto e Rosa, já era componente fundamental do fazer literário de Mia Couto antes mesmo da leitura de Rosa, como busca de (re)construção da nacionalidade moçambicana através de uma linguagem própria.

É verdade que a marca da oralidade nos textos, bem como a presença de neologismos, comum aos dois autores, foram estratégias de construção lingüística que se tornaram mais freqüentes em Mia Couto nos textos publicados após o contato com a obra rosiana. Esses elementos, entretanto, já estavam presentes nos contos de Vozes anoitecidas (Couto, 1986), publicados antes da leitura de Guimarães Rosa. A pesquisadora Cavacas, em dois minuciosos levantamentos — Mia Couto: brincriação vocabular (1999) e Mia Couto: pensatempos e improvérbios (2000) —, documenta a presença desses elementos em toda a obra de Couto, apontando vários procedimentos de recriação lingüística já presentes em Vozes anoitecidas, a saber:

a)    Criação de neologismos, como: "rapidou" (p.62); "noitar" (p. 159); "gordando" (p. 134); "pensageiro" (p. 40);

b)   Aproveitamento da linguagem oral, em termos como: "mitombo", da região de Sofala, usado para designar remédio, mezinha[2] (p. 162); ou "monhé", termo popular, usado para designar indiano (p. 74); ou ainda "ndlati", termo do ronga, que designa uma ave mítica (p. 48);

c)    Recriação de expressões, como: "sem aqui nem onde" (p. 94), a partir da expressão "aqui e agora"; ou "enquanto é cedo" (p. 51), a partir da expressão "enquanto é tempo"; ou ainda "à escondida" (p. 156), partindo da expressão "às escondidas";

d)   Aproveitamento de provérbios e ditados da sabedoria popular, como por exemplo: "o destino da morte é ser sempre muita" (p. 125), em analogia ao ditado "Se te morrer o filho, morrer-te-á também a mulher", da língua sena, falada na zona central de Moçambique; ou "Você não pode querer as riquezas sem os sacrifícios" (p. 146), análogo a "Não podes colher os frutos onde não semeaste", do changana , língua da região sul de Moçambique; ou ainda "O acontecimento nunca é indígena. Chega sempre de fora, sacode as almas, incendeia o corpo e, depois, retira-se". (p. 147), em analogia ao provérbio nianja, do norte do país, que diz que "O que aparece nunca semeia ou toca sinais".

Essas brincações[3], portanto, já pertenciam ao repertório de instrumentos com os quais Mia Couto procurava recriar a língua portuguesa anteriormente à leitura de Guimarães Rosa. Assim, não podemos assegurar que esse contato veio realizar uma modificação essencial na personalidade artística de Mia Couto[4]. Sua maior contribuição está em corroborar — com a autoridade do grande escritor — a busca de uma linguagem que dê conta de expressar a mestiçagem cultural moçambicana:

 

sou um escritor africano, branco e de língua portuguesa, porque o idioma estabelece o meu território preferencial de mestiçagem, o lugar de reinvenção de mim. Necessito inscrever na língua do meu lado português a marca da minha individualidade africana. Necessito tecer um tecido africano e só sei fazer usando panos e linhas européias. O gesto de bordar me ensina que estou inventando uma outra ordem (... ) (Couto apud Cavacas, 1999).

 

A necessidade de corromper a língua em favor de uma expressão mais adequada à realidade local é uma marca de todas as literaturas dos países colonizados. É o modo de transformar a própria língua do colonizador em instrumento cultural de resistência, de conservação da identidade nacional. O português é o idioma do “outro”. Ao ser indagado sobre o significado mais profundo da sua linguagem “despedaçada”, Couto afirma que essa linguagem espelha

 

a dificuldade que as pessoas têm, no português padrão, 'sem desvio’, de encontrar a expressão para traduzir aquilo que é o seu mundo. Elas estão lidando com uma língua que é de outro mundo, com outra lógica, e elas têm que despedaçá-la para que a língua possa ser sua (Couto, 1 998, p. 10).

 

Embora essa busca de uma linguagem que dê conta de expressar o ser africano — que éessencial no fazer literário de Mia Couto — não tenha nascido da leitura de Rosa, seria importante para precisar o grau de influência entre os autores.Gostaríamos, porém, de indicar uma outra perspectiva para oestudo comparado das obras de Mia Couto e Guimarães Rosa.

Em seu Entre lo uno y lo diverso, ClaudioGuillén define a literatura comparada como uma tendência da investigação literária que se ocupa do estudo sistemático de conjuntos supranacionais (1985, p. 13). O autor usa o termo "supranacional" em oposição a "internacional”:

 

Prefiro não dizer, com outros, sem mais contemplações, que a Literatura Comparada consiste no exame das literaturas a partir de um ponto de vista internacional. Pois sua identidade não depende somente da atitude ou postura do observador. Para a história, ou para o conceito de literatura, é fundamental a contribuição palpável de certas classes e categorias que não são meramente nacionais. (...) E digo supranacional, melhor que internacional, para sublinhar que o ponto de partida não é constituído pelas literaturas nacionais, nem pelas inter-relações que possam haver entre elas (l985, pp. l3-l4)[5].

 

A supranacionalidade marca, assim, um ponto de vista diverso daquele que parte das relações internacionais, dando mais ênfase à presença de elementos universais que permeiam a criação literária — gêneros, formas, temas — do que à transmissão destes elementos de uma literatura influente para outra influenciada. Nesse sentido, as tensões entre o modelo universal e a realização local, histórica, nacional — ou, como quer Guillén, entre o geral e o particular — estabelecem pontos de confluência que possibilitam o estudo comparado.

Guillén aponta a possibilidade de existência de vários modelos de articulação entre o local e o universal, apresentando de forma sistematizada três modelos de supranacionalidade (Guillén, 1985, pp. 93-94), dos quais nos interessa precisamente o modelo B. Este segundo modelo indica a ocorrência de fenômenos supranacionais geneticamente independentes, ou pertencentes a diferentes âmbitos nacionais e culturais, mas que implicam condições sócio-históricas comuns.

Nossa proposta para o estudo comparado dos textos de Guimarães Rosa e Mia Couto baseia-se no modelo B de Guillén. Embora não sejam geneticamente independentes do ponto de vista da criação, suas obras pertencem a diferentes âmbitos nacionais e culturais e, apesar de terem sido geradas em momentos históricos absolutamente distintos, implicam em condições sócio-históricas comuns, que vão além do fato de serem, Brasil e Moçambique, ex-colônias portuguesas; as similaridades situacionais fundam-se principalmente na condição de subdesenvolvimento de ambos os países, cuja consciência determina um certo tipo de produção literária.

O estudo comparado das literaturas dos países de língua oficial portuguesa, portanto, justifica-se pelo fato de que essas culturas pertencem a uma tradição histórico-cultural comum, que está na base de suas criações artísticas. Abdala Junior aponta para existência de um "macrossistema marcado como um campo comum de contatos entre os sistemas literários nacionais” de língua oficial portuguesa (1989, p. 16).

A configuração de um macrossistema das literaturas dos países de língua oficial portuguesa permite identificar formas, gêneros e ternas que migraram para além das fronteiras geográficas desses países, transformando-se numa herança multicultural que tem sido apropriada e atualizada pelas diferentes literaturas nacionais. Dessa forma, encontramos pontos de articulação supranacionais que justificam plenamente o estudo comparado de literaturas de língua portuguesa, independentemente das relações de influência — conceito este que dificilmente pode ser dissociado da questão da dependência cultural.

Esta discussão não pretendeu esgotar as possibilidades de justificativa teórica para o estudo comparado das obras de Mia Couto e Guimarães Rosa, mesmo porque a literatura comparada é uma área de estudos cujo dinamismo suscita sempre novas propostas; nosso intuito foi contribuir para uma reflexão sobre algumas perspectivas que têm sido adotadas no estudo comparado desses autores, fugindo do caráter já quase óbvio dessa aproximação.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ABDALA JUNIOR, Benjamin. Literatura, história e política. Literaturas de língua portuguesa no século XX. São Paulo: Ática: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, 1988.

CAVACAS, Fernanda. Mia Couto: brincriação vocabular. Lisboa: Mar Além. Instituto Camões, 1999.

CAVACAS, Fernanda. Mia Couto: pensatempos e improvérbios. Lisboa: Mar Além: InstitutoCamões, 2000.

COUTO, Mia. Vozes anoitecidas. Lisboa: Caminho, 1986 (Uma terra sem amos; 34).

COUTO, Mia. "Escrita desarrumada". Entrevista concedida a Omar Ribeiro Thomaz eRita Chaves. São Paulo: Folha de S. Paulo —Caderno "Mais!", 23 de agosto de 1998.

GUILLÉN, Claudio. Entre lo uno y lo diverso: introducción a la literatura comparada. Barcelona: Editorial Crítica, 1985.

NITRINI, Sandra. Literaturacomparada: história, teoria e crítica. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1997. (Acadêmica; l6).



[1] Luandino Vieira, escritor angolano.

[2] Remédio caseiro.

[3] Neologismo coutiano, ressalta o aspecto lúdico das criações/recriações lingüísticas do autor.

[4] Para Cionarescu, "(...) a influência é uma aquisição fundamental que modifica a própria personalidade artística do escritor" (Nitrini, 1997, p. 127).

[5] No original: "prefiro no decir, con otros, sin más contemplaciones, que la Literatura Comparada consiste en el exame de las literaturas desde un punto de vista internacional. Pues su identidad no depende solamente de la actitud o postura del observador. Es fundamental la contribuición palpable a la historia, o al concepto de literatura, de unas clases y categorías que no son meramente nacionales. (...) Y digo supranacional, mejor que internacional, para subrayar que el punto de aranque no lo constituyen las literaturas nacionales, ni las interrelacionales que hubo entre ellas."